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j o s é -m a n u e l- r o d r i g u e s e l e m e n t o s--n a t u r a i s A percepção visual por vezes desperta sob acção da inscrição sígnica ou gestual realizada sobre a superfície de um corpo. Ao imaginário do objecto fotográfico como corpo jazente, corresponde a intuição de uma disponibilização inconsciente da matéria aberta à visão do mundo. O trabalho do fotógrafo assenta nesse olhar táctil, que multiplica o gesto e objectivamente recorta esse corpo do visível; fá-lo avançar ou retraír perceptivamente, em face dos restantes elementos de cena. A fotografia é habitada por pontos de reconhecimento para o olhar que - em certas obras -, correspondem a uma perpetuação do mundo natural sob a metáfora de uma absoluta vocação de transparência. O olhar e o tempo ditam o desígnio de cada coisa: a fotografia de JMR é habitada por figuras como formas em devir, ditadas no disparo transversal da objectiva, como ritual de suspensão da matéria. É o esboçar de uma nova ontologia dos elementos que possibilita a descoberta de cada uma destas imagens como experiência de corporeidade improvável, mas sempore reconhecível. Cada uma das películas fotográficas de JMR leva-nos à compreensão de uma naturalidade outra, sob a forma de terceira escuta. Quase como se a dinâmica primordial do seu trabalho fosse a da redução da palpabilidade ao silêncio, na suas fotografias existe um chamamento territorial à sensualidade perceptiva . As vozes crepusculares de cada personagem são diferentes instrumentos-actos da noite aquosa onde perduram as marcas de uma ruptura por largada, ou partida. A aparente vocação de descolagem emocional de cada figurada leva à reflexão sobre o estatuto do corpo como presença/ausência na arte e na geologia do quotidiano. Cada personagem é corpo objectualizado onde pulsa a tentação de ancestralidade. Suspensas na corda que atravessa as divisões da casa, assim se preparam estas finas superfícies de inscrição da imagem, por acção cirúrgica do tempo. A fotografia implica uma alquimia de gestos e silêncios. Olho estas imagens erguidas: a voz que me devolvem é branca e grave, embalam-me no assombramento de (des)conhecer a impalpabilidade do medo. Uma mulher dorme – ou jaz – sobre um barco: uma harpa de doce verticalidade propicia o descentramento. Apagam-se sons e gestos nesta água imemorial onde a ideia de morte se apresenta como eternização do desejo de apaziguamento. Sigo o trabalho ritual da fotografia: silenciado na retaguarda, resguarda-se cada gesto do fazedor destas imagens. O registo fixo de contraste e gradação, o instante exacto da tomada de cada imagem nasce de uma atitude de silencioso despojamento. A escrita só pode ser jogo de transfiguração do absoluto: amar a imagem, é amar o encantamento , para além do verbo. As fotografias de José Manuel Rodrigues dirigem-se ao sentir inteiro de quem as observa. Talvez o seu, seja afinal um exercício da composição plástica com função demiúrgica e de reavaliação das estruturas perceptivas, restituindo ao observador cada um dos seus átomos perceptivos. A imagem pode ser sopro, disparo do fim o mundo - ou de um mítico princípio -, aurora da separação inicial dos elementos. Água, terra, chama ou ar, o grão da imagem acompanha de perto a textura figurativa do real como matéria de sobre-vivência. |Nota:
texto revisto do catálogo da exposição Fotografias
- José Manuel Rodrigues - Galeria Muncipal Caldas da Rainha Abril-Maio
1995|
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