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l i d i j a -k o l o v r a t

i s t i n i z a m

“Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus actos são ao mesmo tempo esse acto e a sua imagem espectacular, a que pertence a especial dignidade das imagens ... Mesmo quando os amantes dão voltas aos corpos nus pele contra pele procurando a maneira para se colocarem para ter um do outro maior prazer, (...) não é tanto o seu unir-se que importa (...) quanto o unir-se das suas imagens límpidas (...) no espelho.”

in Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

«Cada uma destas peças desafia o olhar; talvez porque a Lidija Kolovrat resgata as formas a um outro tempo, a uma outra memória de vivência e habitação do corpo. Prefigurando manchas e linhas, sonhando a própria gestação de cada gesto, as suas roupas pedem vida porque se revelam ao olhar como habitáculos de corpo e alma. O trabalho de concepção da autora assenta no fulcro da própria noção de movência e plasticidade, as suas roupas incitam-nos ao desafio da reinvenção de contextos, poses ou sociabilização de discursos porque dotam a nossa matéria viva de uma segunda pele emissora de voz e recém-chegadas melodias. Implicam, portanto, a entrega ao sonho de outros palcos ou contextos de vida. São portanto, peças assentes no gesto de toque e corte – fotográfico ? – ou na ousadia de deslocar referentes da tradição estagnada. Movem-se com o correr das águas do nosso sangue, surrealizando.
“Sabes que Istina significa verdade. Istinizam quer dizer: criar verdades ... em movimento”, segreda a Lidija, do outro lado do espelho. No Kolovrat Lab cada uma das suas peças aguarda o instante-luz da revelação sob os feixes de quotidiano ou passerelle, o encontro convivial entre observador e objecto observado: possui vocação de notícia a imprimir sobre a retina. Istinizam possui, assim, uma estrutura visual de série, fala-nos de um imaginário de cinema-verdade onde a vida começa. Lidija concebeu sete séries centradas em sete fatos recriados com base numa arqueologia do visível e do tempo. Tudo começou repensando esta peça datada de finais de quinhentos – pela estrutura de um casaco - que define, ele próprio, o esqueleto de um arquétipo do corpo e da irredutibilidade humana. Sob as abas das suas mangas, as mãos escondem-se e ressurgem, quase como línguas, simulando instantes de descodificação passiva ou de activa transformação do real, através do reacender do gesto traçado pela mão humana.
Interessa-nos saber que o trabalho da Lidija tece e recupera os fios desta nossa história comum afirmando-se inicialmente como elogio radical da manualidade. Exercita em nós a percepção em travelling de episódios de desfile e encenação da roupa que inscreve a nossa voz no ecrã do tempo. Estas peças são, portanto, objectos estruturalmente comunicacionais – subjectivamente pronunciáveis e singularizáveis, segundas naturezas presentificadas porque exangues do teatro das memórias. Lidija destacou e colou referentes da natureza e da ancestral animalidade humana, recuperou géneses e conteúdos advindos de uma espacio-temporalidade comum e imemorial para reinscrevê-la como chave de descodificação e transfiguração da actual ecologia de vida. Ela recorta formas e reacende cor, transfigurando. Alquimiza sobre a própria matéria-prima que connosco se familiariza, citando as suas e nossas mesmas próprias origens.
Cada motivo estampado joga, assim, com o próprio conceito de essência única ou desdobrável – matrix - e acessório: como quase-películas de sombra e luz, as formas relembram-nos mapas de terra, raízes pousadas sobre as águas, botões como pegadas de luz, olhados sob o crepitar do lume. E assentam sobre o pano que é palco de fundo, jogando com a acidentalidade e o imponderável da própria vida. Lidija desenha sobre tecido ao reencontro do próprio conceito de composição serigráfica, o positivo-negativo inscrito pelo gesto de decalque ou de corte fotográfico. “Esse plissado deve esconder apenas a cor negra .... Como se chama este outro tom que é côr de pele?”
Sob os efeitos de luz, ensaiam-se peças e destinos para que o corpo acorde e adicione estímulos ao recriar das utopias. Existem línguas, caudas, memórias desse corpo ancestral, animal, muscular ou sanguíneo que narra ainda o correr da vida em nós. Existem rios como sangue, fios de cabelo como ouro, fragmentos que recuperam para nós as marcas de um corpo fragmentário e contemporâneo; mas existem também as fendas e cortes que trazem consigo a paralela promessa de metáfora e poesia. Com a Lidija há o desafio de dar entrada no outro lado do espelho, o convite à redescoberta do prazer de sentir e libertar gesto e corpo, a proposta de uma outra convivialidade do humano demiurgo de utopias, sintetizador do tempo.
Lidija Kolovrat compõe diluindo fronteiras e tradições de contextos e existências, porque viver implica a escolha de entrega à fugacidade de instantes de luz. E conhecer implica o espanto, daí que Istinizam - na verdade - confirme o seu trabalho enquanto proposta que sempre repensa o próprio devir do humano, reciclando matérias, invertendo códigos e despertando ancestrais – ou sextos? – sentidos. ”Agarrar o clima...Sabes que vai ser o melhor negócio no futuro?” Este projecto assume-se, portanto, enquanto proposta de consciencialização de naturezas, vivificação de memórias e reconstrução do tempo. Cada gesto - ou pose - é anima porque existe e futuriza, ao saber de raiz essa matriz antiga da nossa táctil natureza que se faz arquitectura em cada corpo.»

|in Catálogo da Exposição Istinizam para Galeria Luis Serpa Projectos ©Mafalda Serrano|

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