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v i t e i x

a- o b r a -a b e r t a
Viteix de 1958 a 1993

“ A arte tornar-se-á então, um reflexo da realidade e, assim, um meio de conhecimento: (…) reflexo não significa “reprodução fotográfica” mas, antes de mais, construção de um modelo que evidencie (…) aquilo que nous parece essencial nos fenómenos da vida humana” *


Enquanto exercício de representação plástica e linguística, a obra de Viteix apela a um múltiplo exercício de entendimento. Concebida como expressão de um homem total, cuja trajectória artística e pessoal o coloca na senda do modelo humanista, ela celebra o acto de criar como resgate ontológico do Ser. A tela é para ele lugar de encenação e habitáculo, animada de fragmentos míticos recém-chegados da ancestralidade. Recuperando velhos sinais e narrativas, a sua obra constitui um elogio da forma e do significado em que as marcas atemporais se deixam re-territorializar - enquadrar? – pelo autor que as vai entretecendo de contemporaneidade.

Começando por assumir o suporte de representação como plano inscritivo, o autor remete-nos para uma primeira reflexão sobre a arte como processo de re-apresentação do repertório de mitos e signos linguísticos transcritos das artes antigas produzidas pelos diversos grupos etnolinguísticos de Angola. A arqueologia e a expressão rupestre estudadas por Carlos Ervedosa - para além das iconografias pesquisadas por José Redinha e Marie-Louise Bastin -, são objecto de uma primeira re-integração material por parte do autor, que decide plasmar esses sinais da emergência identitária angolana. Num segundo tempo, Viteix inventa depois as novas figuras e símbolos do seu idioma gráfico pessoal, nascidas do diálogo entre linguagem e representação visual, plano mítico e realidade, legado colectivo e singularidade ou produção contemporânea e tradição.

Interessa-lhe, portanto, uma abordagem simultânea da arte como poética e pragmática conjugando-a como idioma de vivências culturalmente radicadas. A este propósito, lembremos que a obra de Viteix presta tributo ao princípio histórico de economia de perspectiva desenvolvido pela escultura tchokwe, nomeadamente nas suas Visibarbre (Paris, 1983/84) – quase que graficamente codificadas como árvores-aves-seres-signos – que traduzem a aliança criada entre a síntese formal africana e as correntes académicas de Paris. Sobrepondo diferentes geografias culturais, Viteix cria assim um território plástico in-scripto que busca redimensionar a tradição e a arte do nosso tempo.

É o próprio Viteix que nos indica as coordenadas essenciais da sua investigação, d’ “(...)as Artes Plásticas tradicionais de Angola – a estátua, a estatueta, a máscara, a cerâmica, a pintura e diversos objectos inspirados (...) de valores culturais – em direcção a uma nova expressão (...)”, no âmbito da Tese de Doutoramento que defende em Paris, no período pós-Independência, sob a direcção de Frank Popper. Propõe-se fazê-lo “através da prática e da teoria integradas no seu espaço geográfico e histórico apresentado antes, durante e após a presença colonial fascista portuguesa que teve a duração de cinco séculos” e durante a qual os suportes da religiosidade africana foram suprimidos a favor de uma visão artificial do mundo. Afirma o autor que: “(...)Não deveremos deixar de considerar as Artes Plásticas angolanas no âmbito da Arte tradicional ou da tradição africana, na qual a Arte sempre foi a linguagem do homem negro, assumindo por vocação o universo das coisas criadas pelo génio humano”. Num contexto socio-cultural e politicamente marcado pelas lutas contra o colonizador – onde se multiplicam as influências dos movimentos nativistas importados do Brasil - , Viteix defende a emergência de uma expressão artística fiel ao colectivo e radicalmente nova. Advoga o regresso à história e às “marcas da oralidade dotadas de carácter material” , a fim de contribuir para uma maior consciencialização identitária.

Paralelamente à sua trajectória académica e intelectual, desde cedo que Viteix conjuga na sua obra a defesa da memória cultural africana com a aceitação do desafio colocado pela sua formação e vivência europeias. Desde finais de 40 que integra a jovem geração de intelectuais angolanos defensora do programa “Vamos descobrir Angola” e, na sequência da sua oposição à ordem colonial estabelecida, vê-se obrigado a partir para França. Tendo começado por entender a arte como exercício plástico e discursivo de re-integração e ruptura, Viteix rejeita a expressão vazia do chamado realismo socialista e escolhe repensar a arte como lugar de resistência à aculturação. Em Angola, tanto quanto pelo mundo, o pintor questiona o próprio conceito de arte africana que assim nos surge não como reserva passiva mas sim como matéria móvel, socialmente tratada, onde a memória actual se detém e in-forma.. O autor transfigura poeticamente a ordem do mundo encenando cada tela como receptáculo de inseminação visual e discursiva. Subjectivando – e auto-grafando -, Viteix implica-se em mapear novas e velhas identidades.

No seu regresso a Angola em 1975, o autor passa a aliar o exercício da arte à acção socio-cultural como responsável pela Direcção das Artes Plásticas. Inova programas e metodologias de ensino, cria ateliers destinados aos jovens artistas onde defende e pratica a educação na e pela arte, condenando em tom manifesto o provincianismo cultural e a mediocridade. Sabemos que contestou activamente as estruturas formais e os modelos da representação figurativa desde inícios do seu trabalho, tal como o demonstram algumas das suas obras de finais de 50. Existe nele uma vontade precoce de avaliação instrumental do cubismo e do surrealismo expressa na (des)construção de planos e figuras que busca avaliar a natureza da relação entre representação plástica e realidade.

Se a circunscrição do motivo representado – ou o seu enquadramento ritual e sígnico através do uso da esquadria – possibilita o reconhecimento do contributo de Viteix para a afirmação dos valores da contemporaneidade na arte de raíz africana, a progressiva integração de referentes traduz-se no realismo mágico que depois evoluirá para uma maior fragmentação e libertação formais. Nos seus últimos trabalhos, os elementos de representação são animados por um progressivo movimento de autonomia.

A pintura de Viteix alcança um novo patamar de enunciação de sentido quando a sua pintura se espacializa abrindo-se a uma nova visão interior. Reveladora de novas relações entre os elementos unificados na tela, é a própria imaginação do movimento que surge potenciada na sua pintura, estendendo o campo representacional para além das fronteiras da codificação. O autor pinta agora em direcção a uma transfiguração gestual que defende essa manualidade outrora presente nos seus signos manuscritos e no trabalho dos pigmentos com simples pedaços de algodão, quando procurava banir o distanciamento entre o corpo e a arte . “São lembranças, relâmpagos do passado, associações. Uma porta que se abre. É urgente estar acordado para os restos, rastos e os rostos que Viteix cria”, escreve Jerónimo Belo para a proposta de Desenho e Pintura.Som e Imagens do Jazz. Comidas/Blues que Viteix e Gégé Belo assinam no Outono de 92.

Situada num lugar de múltiplas convergências geográficas, artísticas e teóricas, a obra de Viteix é essencial para a compreensão do movimento de actualização da arte angolana. Na arte como na própria vida, o autor viajou entre o plano mítico e a dimensão histórica. Essa dupla dimensão surge documentada de modo tão linear quanto comovente nas páginas do seu Cahier de Linoléum, onde as suas pequenas placas gravadas nos revelam obras de uma tal precisão caligráfica que quase nelas podemos reconhecer a ponte passível de ser traçada entre a criação plástica de Viteix e o conceito que V.Y. Mudimbe designa por um “retomar” (como metáfora da actividade desenvolvida pelas artes contemporâneas de raíz africana). Na sequência do seu pensamento, também esta pintura pode ser por nós olhada como primeiro acto de integração de testemunho, como avaliação subsequente de métodos e instrumentos de produção, ou ainda como território último de resolução conceptual e pausa meditativa. É assim que nos propomos sublinhar a ideia de Obra Aberta tão nítidamente inscrita na arte de Viteix., talvez como expressão universal do caminho do Homem rumo à totalidade do Ser.

Bibliografia:

Belo, Jerónimo – Restos, Rastos e Rostos – Luanda – Setembro 1992
Margarido, Alfredo – La Peinture Angolaise de Viteix
Mixinge, Adriano – Kitsch and Political Manipulation in Angola e Viteix: reality and myth Mudimbe, V. Y. - The Idea of Africa – Indiana University Press /James Currey
* Teixeira, Vitor Manuel – Pratique et Theorie des Arts Plastiques Angolais (de la tradition a une nouvelle expression) – These pour le doctorat 3e cycle en esthetique – Universite de Paris VIII – Saint Denis – 1983; Cahier de Linoléum - Paris- Août 1984

| in Catálogo Viteix: obras de 1958 a 1993 - Culturgest Março 2004 ©Mafalda Serrano |

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